Brasil Colônia e novas tecnologias

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Recentemente Mino Carta veio a público para informar que não estará mais escrevendo para o editorial do periódico Carta Capital. Diz que cansou de escrever sempre a mesma coisa…

A mesma coisa de Mino, a tecla em que insiste em bater, é a sua convicção de que o Brasil ainda pensa e age dentro de uma lógica amparada na velha dinâmica colonial da casa grande e senzala. E ele está coberto de razão. Não em querer desistir (desiste, não, Mino!). Mas em apontar a questão crucial do país. Sim, de fato, casa grande e senzala é a lógica que predomina e contamina o nosso cotidiano, apesar da casca tênue de modernidade que construímos para encobrir a nossa real condição.

Dentro do contexto da casa grande e senzala, as disputas entre partidos políticos e a busca de consenso através do embate saudável de ideias perdem o sentido. Deixam de fazer qualquer sentido as diferenças entre esquerda e direita. Assim como a discussão sobre estatização ou privatização e a separação entre as instâncias de poderes daquilo que chamamos de democracia. Perde sentido a nossa tentativa de administrar com eficiência, de contar com pessoas especializadas que podem fazer a diferença. O que adianta pensar hoje, por exemplo, sobre técnicas modernas de gestão de pessoas se, no fundo, o que impera na casa grande é o antigo ´manda quem pode e obedece quem tem juízo`? O que adianta uma boa e séria formação profissional se o processo de seleção e contratação é viciado na origem? Dentro de um cenário de casa grande e senzala, como pensar em novas tecnologias? Como preparar o Brasil para as mudanças que serão necessárias considerando as grandes forças que estão abalando o mundo e prometem colocá-lo de cabeça para baixo em pouco tempo, incluindo, na lista das grandes forças, mobilidade, redes sociais, convergência físico-digital, internet das coisas, máquinas inteligentes, big data e analytics…?

O país está perdendo o trem-bala da história, caminhando vagarosamente atrás de bonde. Em um momento decisivo em nível global, com grandes transformações a caminho, em que precisaríamos estar discutindo a sociedade do futuro, revendo o papel do Estado e das instituições, buscando modos para obter ganhos maiores de produtividade e melhor condição de vida para todos; em um momento em que precisaríamos estar pensando na empregabilidade e nas novas capacitações que em pouco tempo serão indispensáveis, estamos aqui remoendo as nossas próprias confusões mentais, presos a um passado que nos condena e que transforma as nossas ditas ações para o futuro em total baboseira, em conversa que não faz mais nem boi dormir. Se já não fosse o bastante, ainda acreditamos que a salvação possível virá de algum líder iluminado, montado em um cavalo branco.

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Virgínia Duarte
Socióloga e cientista política, com especialização em gestão empresarial. Foi responsável pela área de Inteligência da Softex. Responsável técnica e coautora de várias publicações sobre o setor de TIC. É sócia-diretora da TIC em Foco Estudos e Projetos e editora do site/blog TIC em Foco.

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