Ideas for Milk: gerando ideias e estimulando negócios na cadeia do leite

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O mercado do leite conta com aproximadamente 4 milhões de trabalhadores, reúne 1,3 milhão de produtores, cerca de 2 mil indústrias laticinistas legalizadas e mais de 11 mil transportadores. E cresce de modo vertiginoso: 78% nos últimos cinco anos, com previsão de faturamento de R$ 100 bilhões em 2016, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Leite Longa Vida (ABLV).

A produção do leite encontra-se distribuída por todo o território nacional, fazendo parte da economia de 99% das cidades brasileiras. O leite é transformado em uma centena de derivados (queijos, iogurtes, etc.) e está presente em quase cem categorias de produtos, como sorvetes, xampus, etc. Não resta dúvida, trata-se de um negócio imponente.

Ciente da importância desse negócio, da rapidez com que as mudanças ocorrem hoje em dia e da necessidade de superar desafios na cadeia produtiva do leite, a Embrapa, através da sua unidade Embrapa Gado de Leite, tomou uma iniciativa arrojada: lançar o desafio Ideas for Milk, convidando startups e empreendedores para, com apoio das tecnologias da informação e comunicação, proporem soluções que pudessem aumentar a eficiência, obter ganhos de produtividade, melhorar a qualidade, reduzir custos e facilitar o dia a dia de quem trabalha no setor do leite.

Os projetos apresentados no Ideas for Milk poderiam estar conectados com um ou mais segmentos da cadeia do leite: insumos agrícolas, propriedade rural, logística, indústria de laticínios, mercados e consumidores (Figura 1).

Figura 1 – Visão simplificada da cadeia produtiva do leite

Para cada segmento, a equipe organizadora relacionou alguns desafios atuais (Tabela 1), deixando livre, no entanto, a possibilidade de os participantes do Ideas for Milk explorarem outras possíveis ideias transformadoras.

Tabela 1 – Alguns desafios, considerando elos diversos da cadeia produtiva do leite

ELO DA CADEIA DESAFIOS
Insumos agropecuários
  • Oportunidades para aumentar a comunicação entre os fornecedores de insumos agrícolas e o produtor rural.
Propriedade rural
  • Oportunidades para aumentar a produtividade dos animais, da mão de obra e da terra.
  • Novas formas de comunicação podem contribuir para levar um conjunto de tecnologias e soluções até os produtores.
  • Ações coletivas podem ser utilizadas como estratégia para reduzir custos e minimizar o impacto das variações existentes de custo.
  • O produtor pode minimizar as incertezas da sua atividade por meio de acompanhamento de informações de mercado, meteorológicas e técnicas.
  • Os produtores precisam anotar diariamente informações zootécnicas, econômicas, de qualidade do leite, etc. Otimizar esse processo é uma demanda clara do segmento.
  • Muitos produtores ainda buscam a melhor forma de gerar indicadores úteis a partir dos dados registrados/disponíveis.
  • O produtor precisa de instrumentos para melhorar a análise das informações para a tomada de decisão.
  • Muitos diagnósticos e recomendações podem ser feitos a distância, por meio de mecanismos simples como uso de fotografias, mapas e árvores de decisão.
  • Existe escassez de mão de obra especializada para as atividades no campo.
  • Análises zootécnicas e financeiras analisadas isoladamente ou em associação são incisivas para demonstrar o quanto a fazenda está eficiente. Já existem índices para realizar benchmarking de diversas regiões do Brasil e a própria média Brasil através de programas como Educampo e Balde Cheio. Os valores médios são de domínio público, possuem legitimidade por se tratar de programas regularizados e fiscalizados por empresas sérias, a Laborural, no caso do Educampo, e a Embrapa, no caso do Baldo Cheio. Observando estas informações, existem várias possibilidades de levar até aos produtores rurais informações de forma rápida e de alta confiabilidade.
Logística
  • Na captação, produtores rurais e indústria têm necessidade de receber as informações do leite entregue.
  • Melhorias na gestão das informações de transporte e logística contribuem para a otimização da coleta e da distribuição de leite e derivados e para a redução de custos com ineficiências, perdas e desperdícios na cadeia.
  • É crescente a preocupação com a rastreabilidade dos produtos.
Indústria de laticínios
  • A indústria tem interesse em adotar soluções aplicáveis ao processo de combate às fraudes.
  • As exigências de saúde animal e qualidade do leite abrem espaço no mercado para testes e monitoramento.
  • Aos poucos, a indústria laticinista busca aumentar as exportações, o que requer adoção de padrões de qualidade mais rígidos e mais eficiência nos processos.
Mercado e consumidores
  • Novos nichos de mercado, como os de produtos artesanais, funcionais e específicos para dietas com restrições alimentares, afetam os processos produtivos e requerem novas formas de comunicação.
  • Cada vez mais, os consumidores exigem qualidade e informações sobre a origem e o processamento dos produtos.
  • Em busca de praticidade, os consumidores têm adotado novas formas de fazer compras.
  • Leite e derivados têm destaque nos programas públicos de aquisição de alimentos.
  • O leite é a bola da vez nas discussões sobre nutrição e saúde. Isto aumenta o interesse por informações sobre os benefícios de consumir leite e derivados.
  • Treinamentos em novos temas, que utilizam novas plataformas, passam a ser requeridos diante de um cenário complexo, de mudanças rápidas. Isto vale para todos os segmentos da cadeia produtiva

Fonte:  Ideas for Milk.

Estrutura e resultado

A comissão organizadora recebeu 137 propostas, das quais quarenta foram selecionadas para a segunda fase, em finais locais, compreendendo os oito locais de realização do evento, núcleos de expertise no agronegócios: São Carlos, Campinas, Piracicaba, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Viçosa, Lavras, Porto Alegre.  A finalíssima aconteceu em Brasília, em dezembro, cinco meses após o início das discussões que esquentaram o desafio. As vencedoras foram as propostas das finais de Belo Horizonte, Juiz de Fora e Porto Alegre  (Figura 2).

Todo o processo foi realizado com a participação ativa de mentores e instituições parceiras. A banca avaliadora foi formada por executivos de instituições, associações e empresas ligadas ao agronegócio do leite; por representantes de diferentes instâncias do setor público; executivos de grandes empresas de tecnologias digitais, consultorias, aceleradoras e capitalistas de risco; investidores anjo; empreendedores de startups; gestores e pesquisadores da Embrapa.

Conheça as propostas vencedoras

1ª colocada – Belo Horizonte – SCL Rota – Sistema de Coleta de Leite  Equipe: SCL Rota – Sistema de Coleta de Leite

  • Tipo de solução: plataforma composta por um aplicativo para dispositivos móveis e um software web.
  • Descrição: Automatiza e informatiza o processo de coleta e captação de leite de laticínios e cooperativas ponta a ponta.

2ª colocada – Juiz de Fora – Systech feeder – Nutrição de precisão em tempo real para bezerras leiteiras (Salvati & Morais)

  • Tipo de solução: hardware/software, podendo futuramente abranger um software web.
  • Descrição: Sistema integrado hardware/software que monitora em tempo real o consumo de concentrados por bezerras. Define o momento do desaleitamento, otimizando tempo e mão de obra, promovendo ganho em desempenho e reduzindo custo alimentar com gerenciamento eficiente através de dispositivos fixos e móveis.

3ª colocada – Porto Alegre – Sistema de monitoramento e controle em tempo real do percentual de gordura no leite para o processo de padronização (SysLat)

  • Tipo de solução: hardware baseado em sensoriamento, processamento e controle em tempo real.
  • Descrição: Sistema baseado em sensor de cavidade ressonante para o monitoramento e o controle em tempo real do percentual de gordura no leite, empregado na etapa de padronização, a fim de aumentar a eficiência da produção de leite e a qualidade dos produtos derivados.

Campinas – Sistema de bioimpedância para análise da qualidade e rastreabilidade do leite (Bia Technology)

  • Tipo de solução: sistema de bioimpedância elétrica, composto de hardware portátil.
  • Descrição: Equipamento portátil de análise do espectro de contagem de células somáticas presentes no leite in natura, com emissão de laudo no ato do carregamento e transmissão dos dados ao laticínio. Será utilizado pelo transportador para avaliar temperatura, CCS e fornecer comprovante ao produtor de leite.

Lavras – Meu Leite

  • Tipo de solução: aplicativo móvel
  • Descrição: Para rastreabilidade do leite, promete integrar consumidor, laticínio e fazenda. É associado a um selo de qualidade que permite ao consumidor conhecer a origem do leite e derivados no momento da compra, identificando diferentes produtores. A solução também permite que os produtores conheçam seu alcance de venda.

Piracicaba – Manejo integrado da mosca-dos-estábulos (Colly Química)

  • Tipo de solução: aplicativo para dispositivos móveis a ser usado em conjunto com armadilhas.
  • Descrição: Aplicativo para dispositivos móveis usado em conjunto com armadilhas de captura para monitorar e controlar o nível de infestação da mosca-dos-estábulos na criação de gado e na produção de leite, minimizando os prejuízos que chegam até 30% de perda de peso e 50% de redução de leite em grandes infestações.

São Carlos – Técnicas de visão computacional aplicadas na detecção de mastite na bovinocultura de leite (Biossistec Jr.)

  • Tipo de solução: hardware/software.
  • Descrição: Hardware para captação de imagens termográficas para o desenvolvimento de um software que irá analisar e classificar a existência de mastite nas tetas das vacas de leite em tempo real.

Viçosa – Magis Coleta (Magistech Sistemas)

  • Tipo de solução: aplicativo móvel, associado a um selo de qualidade e rastreabilidade do leite. O sistema foi desenvolvido em quatro partes: web service, administrador web, website e aplicativo móvel inicialmente disponível versão Beta para Android.
  • Descrição: Objetiva integrar consumidor, laticínio e fazenda. Permite ao consumidor conhecer a origem do leite e dos derivados no ato da compra. Identifica e filtra produtores e/ou laticínios diferenciados. São coletadas informações de produção e qualidade, aumentando a confiabilidade na cadeia produtiva.
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