Mobilidade: um novo estilo de vida, um novo jeito de ser

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A mobilidade não é em si algo inusitado. Éramos móveis e continuaremos a nos movimentar. O que então torna a mobilidade hoje tão diferente da mobilidade de outrora?

Mobilidade agora está impregnada de tecnologia

O que é novo na mobilidade é o fato de ela ter se tornado um estilo de vida, um jeito de ser. Estamos sempre em movimento.

Diferentemente da mobilidade do passado, a mobilidade do século XXI vem acompanhada de tecnologia. A tecnologia transformou-se na nossa segunda roupa, uma camada acessória que intermedeia as nossas relações com outras pessoas e coisas. E, daqui para o futuro, cada vez mais, a tecnologia estará presente em nossas vidas movimentadas, mesmo sem o nosso interesse de contar com ela. Seremos rastreados, não mais apenas pelos vizinhos, mas também pelos smartphones e, se resistirmos a eles, por câmeras de segurança e drones.

Nova percepção do tempo e do espaço

Na mobilidade suportada pela tecnologia, a percepção de tempo é alterada. O que importa é só o momento. Ele é intenso, é nele que as coisas acontecem. Quando você pode falar remotamente com alguém na China? Agora, neste momento. Quando você pode conhecer como está a sua saúde e monitorar as suas funções vitais? Agora, já. Quando você pode enviar a planilha para o escritório? Imediatamente. A vida passa a ser constituída por uma somatória de momentos digitais.

Momentos digitais são únicos. Imagine que você está em uma estrada, no final da tarde, indo para a casa para receber amigos para o jantar e é informado que houve um acidente e que a pista foi interditada e que não há previsão para a liberação. Seu assistente inteligente pode ajudá-lo de várias formas a contornar o imprevisto. Pode, por exemplo, sugerir uma rota alternativa e determinar o novo tempo que será necessário para chegar em casa. Pode se comunicar com a casa, avisando do atraso e pedindo que instrua o micro-ondas para postergar o momento de início do aquecimento dos pãezinhos que você pensa em oferecer para os seus convidados. Pode entrar em contato com eles, também, adiando o horário do encontro.

Os momentos digitais alteram a nossa percepção do espaço. As fronteiras entre, por exemplo, casa e trabalho, casa e hospital, ambiente de lazer e de estudo tornam-se menos óbvias. Agora, podemos realizar tarefas que antes só eram possíveis com a nossa presença física em um dado lugar. Podemos realizá-las em qualquer lugar e no trânsito entre um lugar e outro. As distâncias são encurtadas. Podemos nos comunicar com qualquer pessoa do outro lado do mundo, e, com apoio da tecnologia, ter a sensação de que ela está ali, presente, do nosso lado. Nos momentos digitais, o virtual se mescla à realidade.

Produtos leves, portáteis, multitarefas e fáceis de usar

Os momentos digitais requerem produtos e serviços específicos. Convenhamos, ninguém vai sair por aí abraçado a um desktop ou a um equipamento de verificação de sinais vitais desses que existem nos hospitais, não é mesmo? Os produtos móveis têm que ser leves, portáteis e reunirem em um só dispositivo uma quantidade grande de funcionalidades.

Considere um smartphone. Ele é agenda, é rádio, é relógio e despertador, é filmadora. Podemos escrever, ler mensagens, assistir a vídeos, enviar fotos e esboçar sentimentos com os emotions. Além disso, de vez em quando, conseguimos até fazer ligações telefônicas com ele. É mais raro, mas acontece.

A complexidade do software pode ser deixada na nuvem, com resgate apenas da parte que interessa a cada momento. Surgem, assim, os microsserviços, moldados às necessidades específicas de cada momento digital.

Simplicidade na ponta traz complexidade para o desenvolvedor da solução

A leveza e a simplicidade do produto portátil colocam uma série de novas demandas para o desenvolvedor da solução, seja no design do hardware, explorando interfaces mais amigáveis e o uso de componentes cada vez menores, seja no desenvolvimento do software, fornecendo ao consumidor nada mais do que ele necessita em um dado momento digital. Assim, por exemplo, quando você viaja para um outro país, seu aparelho portátil é capaz de identificar onde você está e enviar informações sobre restaurantes disponíveis e eventos que acontecem nas proximidades daquele local. Informações que seriam inúteis, caso a viagem não ocorresse, caso você não estivesse lá. E o seu auxiliar inteligente sabe disso.

Para que uma dada solução inteligente possa oferecer apoio para lidar com os vários (e nem sempre rotineiros) momentos da sua vida, ela precisa conhecê-lo e a cada contexto em que está envolvido. É dentro deste cenário, que privilegia a mobilidade e o atendimento contextualizado das necessidades específicas de cada pessoa, que tecnologias, técnicas e práticas de design da experiência do usuário, aprendizado de máquina e big data/análises avançadas ganham terreno, junto com a adoção da nuvem e da entrega de microsserviços.

“É nós na fita”

O foco é no usuário. Ele é o centro das atenções: atendê-lo imediatamente, dar a ele esta nova possibilidade de uso expandido do tempo e do espaço. Mas, com a demanda por redução da complexidade e com a tomada das decisões sendo realizada pelas soluções a partir do conhecimento adquirido de nós e do contexto, as escolhas pessoais, um princípio básico da liberdade e do comprometimento com a liberdade, podem ficar comprometidas. Ou seja, estamos no centro, temos poder, mas não temos escolha. Podemos estar rumando em direção a um mundo em que os consentimentos não serão devidamente processados e analisados, não serão resultado da avaliação complexa das várias situações e opções possíveis, incluindo razão e emoção, restringindo-se a um clique no botão aprovo ou desaprovo uma dada recomendação feita por uma inteligência que não é a nossa e que provavelmente supera a nossa.

Se são as soluções tecnológicas que passam a cuidar da complexidade envolvida em uma dada resposta a um ou mais estímulos externos (por exemplo, definir o que farei na minha viagem de férias a um outro país ou cuidar de me tirar de uma pista interditada), então, passa a ser crucial conhecer mais profundamente como foram desenvolvidas. Passa a ser fundamental saber com que acurácia, com que segurança, com que ética, com que algoritmos trabalham. Pois vai que o meu amigo tecnológico, para me ajudar a escapar da estrada interditada, me indique uma rota alternativa que desemboca em um território dominado pelo tráfico de drogas…

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Virgínia Duarte
Socióloga e cientista política, com especialização em gestão empresarial. Foi responsável pela área de Inteligência da Softex. Responsável técnica e coautora de várias publicações sobre o setor de TIC. É sócia-diretora da TIC em Foco Estudos e Projetos e editora do site/blog TIC em Foco.

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