Mulheres na força de trabalho em TI

0
224

Em 2015, havia 518,6 mil pessoas empregadas em ocupações de TI, incluindo, na categoria, profissionais com perfil de nível gerencial (diretores e gerentes de TI), superior (engenheiros em computação, analistas de sistemas e especialistas em TI) e técnico (programadores, técnicos em operação e monitoração de computadores e técnicos em operação de máquinas de transmissão de dados). No período de 2007 a 2015, o crescimento médio do número de profissionais de TI com emprego formal em atividades de software e serviços de TI foi de 7,2% ao ano. O número de profissionais do gênero masculino cresceu 7,8% no período. A quantidade de mulheres cresceu menos: 5,3% (Figura 1).

Figura 1 – Número de vínculos empregatícios formais em ocupações de TI, considerando gênero – Brasil, período 2007 a 2015

Apesar das várias tentativas de estimular a participação feminina em ocupações de TI, a presença masculina entre os profissionais vem crescendo sistematicamente ao longo do período 2007 a 2015. Em 2015, ápice da participação dos homens na força de trabalho em TI, eles representavam quase 80% do total dos profissionais (Tabela 1).

A participação masculina crescente não tem a ver com a redução do número de mulheres em ocupações de TI. A quantidade de mulheres na força de trabalho em TI, na realidade, vem aumentando ao longo do período, conforme mostrado na Figura 1. O que ocorre é que o aumento do número delas ao longo dos anos é proporcionalmente menor que o verificado para o número de homens atuantes no mercado de TI.

Tabela 1 – Distribuição dos profissionais com vínculo empregatício formal em ocupações de TI, considerando gênero – Brasil, período 2007 a 2015

Por que é tão baixa a presença de mulheres nas atividades de TI? Os motivos podem ser variados. Mulheres parecem preferir as profissões da área de humanas enquanto os homens são mais atraídos pela área de exatas. Esse fator cultural pode, de fato, contribuir para a explicação. A quantidade de mulheres em ocupações de TI é baixa por que é relativamente mais baixo o número de mulheres que se interessam pela profissão e ingressam em cursos de TI.

Mesmo considerando que as atividades em software e serviços de TI agradem menos às mulheres que aos homens, por que a sua participação no total da força de trabalho cai sistematicamente ao longo do período? Exploram-se algumas hipóteses a seguir.

Profissionais de TI no setor de software e serviços de TI (SSTI) e em outros setores da economia (N-SSTI)

Nas figuras 2 e 3, para o período 2007 a 2015, apresenta-se a distribuição por gênero dos profissionais de TI empregados em empresas do setor de software e serviços de TI e em empresas de outros setores econômicos, respectivamente. Na comparação das tabelas, observa-se o seguinte:

  1. A maioria dos profissionais de TI encontra-se empregada em empresas que não têm software e serviços de TI como a sua atividade principal (N-SSTI).

  1. Ao longo do período, o número de profissionais de TI tem crescido, sobretudo, nas empresas de software e serviços de TI (SSTI). A quantidade de profissionais de TI cresceu, em média, 10,9% ao ano nas empresas do SSTI, enquanto que o aumento médio foi de apenas 5,3% a.a. no conjunto constituído pelas empresas de outros segmentos econômicos. Isso significa que o setor de software e serviços de TI passa a ser, a cada ano que passa, mais responsável pelo total de empregos gerados em TI. O principal empregador deixa de ser a média ou grande empresa que mantém um departamento interno de TI, com os profissionais ocupados em TI convivendo diariamente com a força de trabalho das demais áreas da organização, para se tornar, crescentemente, o pequeno empresário que conta com uma estrutura composta por poucos funcionários, concentrada na sua atividade-fim, com probabilidades menores de interação entre os profissionais de TI e profissionais que exercem outras ocupações.
  1. Em ambos os setores (N-SSTI e SSTI), a participação feminina no total da força de trabalho é baixa e vem caindo no período de 2007 a 2015.
  1. A partir dos dados disponíveis, portanto, não se pode afirmar que um setor seja mais avesso que o outro para a contratação de mulheres para o exercício de ocupações em TI, o que leva a pensar, também, que o porte da empresa não influencia na escolha do gênero do empregado. O fato de, durante o período sob análise, ter ocorrido uma terceirização das atividades de software e serviços de TI das empresas de outros setores econômicos para o setor de software e serviços de TI não parece estar na raiz da explicação da redução da participação feminina ao longo dos anos. Dito de outra forma, não é possível afirmar que as empresas do SSTI colocam mais obstáculos para a contratação de mulheres que as empresas do N-SSTI.

Figura 2 – Número e distribuição de profissionais com vínculo empregatício formal em ocupações de TI atuantes em empresas do setor de software e serviços de TI (SSTI), considerando gênero – Brasil, período 2007 a 2015

Figura 3 – Número e distribuição de profissionais com vínculo empregatício formal em ocupações de TI atuantes em empresas de outros setores econômicos, exceto software e serviços de TI (N-SSTI), considerando gênero – Brasil, período 2007 a 2015

Crescimento do número de profissionais com ocupações de TI

Tanto nas empresas dos vários setores econômicos (N-SSTI) como nas empresas com atividade-fim em software e serviços de TI (SSTI), o número de homens tem crescido mais que o de mulheres. No SSTI, o número de profissionais de TI do gênero masculino cresceu, em média, no período 2007 a 2015, 11,5% ao ano e, do gênero feminino, 8,8% a.a. No N-SSTI, as taxas médias anuais de crescimento no período foram de 5,8% e 3,4%, respectivamente.

Em ambos os setores, observa-se redução no ritmo de crescimento do número de profissionais com ocupações em TI. A desaceleração de crescimento pode estar na raiz de uma participação menor das mulheres, ao longo do tempo. Ou seja, o cenário de menor dinamismo do mercado de trabalho em TI, tenderia a afetar mais as pessoas do gênero feminino que masculino, reduzindo as suas oportunidades de contratação.

Considerações finais

Dentre os achados mencionados acima, vale destacar a participação baixa, e cada vez mais baixa, das mulheres em ocupações de TI. Os esforços para ampliar a sua presença têm se mostrado pouco eficazes, conforme demonstram os números.

As pessoas exercem as suas escolhas sobre o que querem fazer e os locais em que querem trabalhar. Assim, parecem existir ocupações que atraem mais as mulheres que os homens e vice-versa. As ocupações em TI, ao que tudo indica, fazem parte do conjunto de profissões mais afins com o interesse masculino.

As mulheres podem não se sentir especialmente atraídas pelas ocupações em TI, mas o mercado empregador tampouco parece lhes ser hospitaleiro. É possível que, no mercado de trabalho em TI, as mulheres funcionem como um exército de reserva, tendo mais oportunidades de ingresso todas as vezes em que aumenta a necessidade por mão de obra e chances relativamente menores que os homens de serem absorvidas (ou manterem os seus empregos) nos períodos em que há uma retração da demanda por recursos humanos. Essa hipótese, que merece melhor investigação, revela barreiras para a contratação de mulheres colocadas pelo próprio mercado de trabalho, reforçando o aparente pouco interesse da comunidade feminina pelas ocupações em TI.

Notas metodológicas

Para o período 2007 a 2010, os dados relativos ao número de vínculos empregatícios em ocupações de TI no N-SSTI são parciais em virtude de erros na fonte, para o Estado de Rondônia.

Para efeito desta publicação, o número de vínculos empregatícios está sendo considerado como sinônimo de número de pessoas empregadas. Isto nem sempre é certo, pois uma mesma pessoa, em tese, pode possuir mais de um vínculo empregatício. Embora esta situação possa ser comum em algumas profissões liberais, não é um caso típico nas atividades de software e serviços de TI.

O setor de software e serviços de TI (SSTI) é formado por empresas com atividade principal, ou seja, fonte principal de receita, em uma das seguintes classes CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) da versão 2.0: 6201 – Desenvolvimento de software sob encomenda; 6202 – Desenvolvimento e licenciamento de software customizável; 6203 – Desenvolvimento e licenciamento de software não customizável; 6204 – Consultoria em TI; 6209 – Suporte técnico, manutenção e outros serviços de TI; 6311 – Tratamento de dados, provedores de serviços de aplicação e de hospedagem na Internet; 6319 – Portais, provedores de conteúdo e outros serviços de informação na Internet.

O N-SSTI (Não-SSTI), envolve todos os demais setores da economia, exceto o SSTI.

- Publicidade -
Innovation Hunter
COMPARTILHAR
Virgínia Duarte
Socióloga e cientista política, com especialização em gestão empresarial. Foi responsável pela área de Inteligência da Softex. Responsável técnica e coautora de várias publicações sobre o setor de TIC. É sócia-diretora da TIC em Foco Estudos e Projetos e editora do site/blog TIC em Foco.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here