O futuro das cirurgias

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Tais como nas demais atividades econômicas e sociais, as tecnologias digitais também provocarão mudanças significativas na área da Saúde, transformando o tratamento dispensado aos pacientes, a capacidade para diagnosticar e prognosticar doenças, o local e momento em que os cuidados médicos serão entregues e o processo de formação e capacitação dos profissionais da área.

A seguir, listam-se algumas tecnologias que prometem trazer mudanças nos procedimentos cirúrgicos. A cirurgia é apenas um campo das transformações em andamento no setor da Saúde, de um modo geral.

Tecnologias que irão moldar os procedimentos cirúrgicos do futuro

Minibots

Em 2014, a Nasa aliou-se a uma empresa da área médica, a Virtual Incision, com o intuito de fabricar um robô em miniatura capaz de auxiliar na operação de astronautas, em casos de emergência no espaço. Através de uma pequena incisão minimamente invasiva, o robô cirurgião é inserido dentro do corpo do paciente e começa a operar, sendo controlado remotamente por médicos ou por astronautas treinados (caso a comunicação com a Terra não seja possível), usando joysticks.

Realidade virtual

Em abril de 2016, no Royal London Hospital, foi realizada a primeira cirurgia com apoio de realidade virtual. Qualquer pessoa interessada, utilizando smartphone e equipada com headset de realidade virtual, pode assistir em tempo real ao procedimento de remoção de um tumor de intestino.  O equipamento em uso permitia que os espectadores passeassem virtualmente pela sala de operação, controlando o zoom para ampliar ou inibir qualquer detalhe do procedimento. A experiência abre um novo horizonte para a capacitação de profissionais da saúde à distância, em nível global, com potencial para alcançar milhares de interessados.

Realidade aumentada

A empresa Medsights Tech desenvolveu um software baseado na tecnologia de realidade aumentada para reconstrução tridimensional de tumores. A reconstrução em 3D fornece para os cirurgiões capacidade de visão de raio-X, sem passar pelos efeitos nocivos de exposição à radiação. Na mesma linha, o sistema de visualização em 3D da EchoPixel permite que os médicos interajam com órgãos e tecidos específicos do paciente em um espaço tridimensional.

Outro aplicativo de realidade aumentada direcionado para a área da saúde é o HoloAnatomy. Através do uso da HoloLens, o HoloAnatomy possibilita a visão em 3D da anatomia humana (ossos, músculos, nervos, órgãos, etc.). Cada sistema, parte ou elemento do corpo humano pode ser observado por separado, o que permite a exploração em detalhes. Trata-se, portanto, de uma excelente ferramenta para estudo e avaliação da anatomia, com vantagens óbvias em relação aos métodos tradicionais de investigação e aprendizado.

Robôs cirurgiões

O robô cirurgião mais conhecido e um dos pioneiros no segmento é o daVinci Surgical System, comercializado pela empresa Intuitive Surgical. O daVinci apresenta sistema de visão tridimensional em alta definição e instrumento de punho que se move e rotaciona com maior destreza que a mão humana. O aparato permite que os cirurgiões façam incisões menores e obtenham maior precisão cirúrgica.

A Cambridge Consultants busca suprir limitações do daVinci relacionadas com o seu grande porte e a sua inaptidão para lidar com tecidos frágeis e com riqueza de detalhes. O robô da Cambridge conta com componentes minúsculos e flexíveis e braços pequenos. Os desenvolvedores acreditam que a tecnologia poderá ser utilizada com êxito até mesmo em cirurgias oftalmológicas.

No final de 2015, a Verily, unidade de ciências da vida da Google/Alphabet, e a Ethicon, divisão especializada em equipamentos médicos da Johnson & Johnson, anunciaram parceria para criação da Verb Surgical. A startup com padrinhos poderosos surge com o propósito de desenvolver uma plataforma para soluções cirúrgicas suportada por robótica médica. Por trás da ideia está um passo mais ambicioso do que “apenas” usar robôs em cirurgias. Como registrado na homepage da Verb: “estamos construindo uma plataforma digital para cirurgias que combina robótica, visualização avançada, instrumentação avançada, análises de dados e conectividade”.

Aprendizagem de máquina

Os robôs cirúrgicos comerciais atualmente existentes não trabalham com a proposta de aprendizagem autônoma. Mas isso deve mudar rapidamente.

Em press release sobre o surgimento da Verb Surgical, a SRI Robotics, responsável pelo robô cirurgião Taurus, faz referência ao fato de a plataforma proposta pela Verb incluir, nos seus planos, tecnologia de aprendizado de máquina. A combinação entre robôs cirurgiões e inteligência artificial poder levar as cirurgias para um patamar ainda mais elevado. Os robôs cirúrgicos tornar-se-iam ferramentas inteligentes inestimáveis, capazes de apoiar as ações humanas com a sua inteligência colaborativa, o seu potencial para digerir grandes volumes de dados e tomar decisões rápidas baseadas em análises avançadas.

Considerando o plano mais abrangente da Verb Surgical, robôs cirúrgicos tradicionais, como o Taurus e o daVinci Surgical System, poderiam, inclusive, ser parte da nova plataforma robótica idealizada pela empresa.

Cirurgias minimamente invasivas

No decorrer da história da cirurgia, um dos objetivos que acompanhou os cirurgiões foi o aprimoramento das suas técnicas de incisão. A partir da segunda metade do século XX, a fibra óptica abriu espaço para que pequenos chips de computador com câmeras fizessem a sua parte, enviando imagens de alta resolução de dentro do corpo humano. Os médicos, então, puderam ver claramente o que acontecia com o corpo de um paciente, sem que para isto tivessem que fazer grandes incisões. Puderam, também, realizar microcirurgias, tais como a laparoscopia.

Com o seu sistema pioneiro de cirurgia magnética, a startup Levita Magnetics (www.levita.com) pretende refinar ainda mais as microcirurgias com a sua plataforma tecnológica que utiliza um campo magnético para manusear a vesícula biliar durante cirurgia laparoscópica, sem danificar a parede abdominal.

A startup FlexDex Surgical (http://flexdex.com/) comercializa ferramenta para procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos que transmite movimentos do punho do cirurgião para o instrumento mecânico. A solução custa bem menos que os robôs cirúrgicos.

Impressão 3D e simuladores para planejamento cirúrgico e capacitação

Cirurgias que duram horas, complexas e de alto risco necessitam de um planejamento minucioso. Tecnologias como a impressão 3D ou outros simuladores contribuem para o planejamento do ato cirúrgico, podendo funcionar, também, como um bom instrumento de formação e capacitação.

Médicos da University of Rochester Medical Center (URMC) desenvolveram uma técnica para criar órgãos e ossos artificiais com impressoras 3D. O produto final é utilizado para capacitação de futuros profissionais da saúde.

Em março de 2016, na China, um grupo de médicos experientes construiu um modelo de tamanho normal do coração de um bebê que nasceu com um defeito cardíaco. O objetivo era planejar a cirurgia complicada que teria de acontecer em breve.

No Brasil, a divisão de tecnologias tridimensionais (DT3D) do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer conta com três mil casos de emprego da tecnologia de impressão 3D para aumentar a precisão do planejamento cirúrgico, o sucesso das intervenções e a redução do custo do tratamento. De 2012 até o mês de agosto de 2013, a DT3D apoiou 180 hospitais em todos os estados brasileiros e em vizinhos latino-americanos, como Uruguai, Paraguai, Chile, Equador e México. Hoje, é consultada por estes hospitais em tudo o que diz respeito à aplicação das tecnologias tridimensionais a casos médicos desafiadores – em sua maioria, cirurgias cranianas, de face e ortopédicas.

Um componente essencial das aplicações do CTI Renato Archer é o software InVesalius, desenvolvido nos laboratórios do Centro. O InVesalius pode ser baixado gratuitamente no portal http://www.cti.gov.br/invesalius. Trata-se de uma plataforma em código aberto para reconstrução, no formato 3D, de imagens 2D geradas em exames realizados em equipamentos de tomografia computadorizada ou ressonância magnética. O software foi traduzido para dez línguas e é usado em oitenta países por um grupo de sete mil pessoas.

Diagnósticos imediatos

Cientistas do Imperial College London desenvolveram um bisturi inteligente, o iKnife, capaz de identificar, em tempo real, se o tecido que está sendo cortado pelo cirurgião é ou não maligno. Durante testes, o iKnife diagnosticou amostras de tecidos de 91 pacientes com 100% de acurácia, fornecendo informação imediata que, normalmente, através de testes laboratoriais, requer tempo de espera.

Profissionais da saúde diante de um novo cenário

Pelo menos por enquanto, existe consenso de que o futuro da cirurgia reside na parceria entre humanos e tecnologia, ou seja, robôs e outros máquinas jamais substituirão as pessoas. Ambos irão se complementar, trazendo benefícios inimagináveis. Mas é necessário se preparar para esse novo contexto.

Os profissionais da saúde e, em especial, os cirurgiões precisem se familiarizar rapidamente com todo o aparato tecnológico que está a caminho.

As faculdades de medicina também têm um papel relevante a desempenhar. É necessário rever a grade curricular de formação dos futuros profissionais da saúde, trazendo as inovações tecnológicas para dentro da sala de aula e, desta forma, preparando-os antecipadamente para lidar com a onda de mudanças disruptivas que bate à porta.

O toque humano não é necessariamente a quintessência do trabalho dos cirurgiões. Agora que as tecnologias vêm tomando espaço nos centros cirúrgicos, talvez seja a hora de os cirurgiões repensarem a sua atividade profissional. Investir no relacionamento com os pacientes antes e depois dos procedimentos cirúrgicos pode ajudar a mantê-los como peças fundamentais no novo contexto em que a robótica e a inteligência artificial ganham papel de detaque.

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