Software e serviços: o que acontece com o mercado brasileiro?

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Em 2015, os investimentos em TI (incluindo hardware, software e serviços) cresceram 9,2% em relação ao ano anterior. A informação consta da publicação Mercado Brasileiro de Software: panorama e tendências 2016 da ABES (Associação Brasileira das Empresas de Software), que tem como base levantamentos da IDC (International Data Corporation), que atualiza a série histórica de dados sobre o mercado considerando um “modelo de dólar constante”.

Apesar das profundas mudanças no cenário econômico brasileiro, se comparado às demais economias, o país se destacou, já que a média mundial de crescimento dos investimentos em TI foi de 5,6%, registra a publicação. Com o resultado de 2015, o Brasil permanecia na lista dos países que apresentaram maior crescimento setorial, mantendo a 7ª posição no ranking mundial de investimentos em TI.

Vamos deixar, por enquanto, hardware de lado e nos concentrar no mercado de software e serviços que, segundo o documento, corresponde a 44% do mercado brasileiro de TI, com os investimentos em software crescendo 30,2% em 2015 em relação ao ano anterior e serviços aumentando 8,7%. Embora possam ser úteis para comparações internacionais, mostrando que outros países estão em situação pior que a nossa, essas taxas de crescimento, na verdade, não parecem dizer muito sobre a realidade do setor brasileiro de software e serviços.

A primeira coisa a se entender é que o mercado doméstico de software e serviços inclui as atividades internas de empresas que desenvolvem software e prestam serviços e de empresas que comercializam/distribuem produtos desenvolvidos fora. Na conta, portanto, não fazem parte as exportações de software e serviços de empresas localizadas no país, mas deveriam ser incluídas as importações realizadas. Assim, o mercado interno para software e serviços, também denominado pela ABES investimentos em software e serviços, seria:

MERCADO INTERNO DE SOFTWARE E SERVIÇOS = (comercialização interna de software e serviços de empresas de capital nacional + comercialização interna de software e serviços de empresas de capital estrangeiro através de representação própria no país + comercialização interna de software e serviços de empresas de capital estrangeiro através de representantes terceiros no país + importações de software e serviços negociadas diretamente entre o comprador e o usuário final local)  – exportações de software e serviços.

As atividades de software e serviços das empresas que atuam no país são fortemente direcionadas para o usuário interno, com as exportações representando uma fatia pequena do total. Para a ABES, US$ 925 milhões, em 2015, respondendo por 3,4% do mercado (US$ 27,6 bilhões). O ambiente doméstico seria responsável pelo consumo dos 96,6% restantes, ou seja, US$ 26,6 bilhões. Do total movimentado, parte relevante do mercado de software seria resultado de desenvolvimento no exterior (76,3%), percentual que cai para apenas 0,6% do total de serviços.

O mercado brasileiro de software e serviços

A seguir, apresentam-se os resultados comparativos para 2015, em milhões de Reais e Dólares, considerando a taxa de conversão adotada pela ABES (2,356).

Tabela 1 – Software e serviços de TI – comparação entre dados da TIC em Foco e da ABES – Brasil, 2015

Em milhões

 

TIC EM FOCO (1) ABES (2)
RECEITA DAS EMPRESAS BRASILEIRAS DE SOFTWARE E SERVIÇOS TI MERCADO DOMÉSTICO + EXPORTAÇÕES
Em R$ Em US$ % Em R$ Em US$ %
Software 17.267 7.329 19,9% Software 29.643 12.582 45,6%
Consultoria + integração de sistemas 17.597 7.469 20,3% Consultoria 3.520 1.494 5,4%
Integração de sistemas 5.282 2.242 8,1%
Sob encomenda 38.604 16.385 44,5% Sob encomenda 3.308 1.404 5,1%
Suporte técnico + outsourcing + outros serviços de TI 13.198 5.602 15,2% Suporte técnico 6.382 2.709 9,8%
Outsourcing 14.313 6.075 22,0%
Treinamento, desenvolvimento no exterior 886 376 1,4%
Exportação serviços 1.602 680 2,5%
Subtotal 86.667 36.786 100,0% Subtotal 64.936 27.562 100,0%
Tratamento de dados 16.607 7.049
Portais 6.599 2.801
Subtotal 23.206 9.850          
TOTAL 109.873 46.636          
Cr. real estimado (série R$ – IGP-DI) 2,4% Cr. estimado (série US$ constante) 17,5%

Taxa de conversão (R$ / US$) = 2,356. Fonte: (1) TIC em Foco a partir dados PAS/IBGE e PMS/IBGE, anos diversos; (2) Mercado Brasileiro de Software: panorama e tendências, 2016.

 

Segundo a TIC em Foco, em 2015, de uma receita total de R$ 86,7 bilhões (US$ 36,8 bilhões), as empresas de software (customizável e não customizável) seriam responsáveis por R$ 17,3 bilhões (US$ 7,3 bilhões). As empresas de serviços, incluindo consultorias em TI, desenvolvimento de software sob encomenda e atividades de suporte técnico responderiam pelo restante da receita bruta (R$ 69,4 bilhões/US$ 39,3 bilhões).

A receita das empresas brasileiras de software e serviços seria maior se, além dos segmentos considerados no cálculo acima, fossem também acrescentadas as receitas das empresas com atividade principal nas classes da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) 6311 e 6319 – ‘Tratamento de dados, provedores de serviços e de hospedagem na Internet` e ‘Portais, provedores de conteúdo e outros serviços de informação na Internet`, respectivamente -, que também fazem parte do que comumente vem sendo denominado serviços de TI.  Neste caso, a receita subiria para R$ 109,9 bilhões (US$ 46,6 bilhões), valor do qual precisaria ser retirada a fatia mínima resultante das exportações de software e serviços (estimadas pela TIC em Foco em R$ 3,4 bilhões/US$ 1,4 bilhão) e acrescentadas as importações em software e serviços (R$ 3,9 bilhões / US$1,6 bilhão) para se chegar a um valor aproximado do mercado doméstico.

 

Crescimento em moeda local, para um mercado local, aponta a realidade do país

Embora o valor estimado pela TIC em Foco esteja acima daquele calculado pela ABES, vale ressaltar a desaceleração do crescimento da receita das empresas brasileiras de software e serviços de TI em anos recentes.  Considerando a moeda nacional, essas empresas cresceram em média, em termos reais, no período 2007 a 2012, cerca de 8% ao ano. No entanto, viram o crescimento da sua receita cair para 4,7% em 2013 e 5,3%, em 2014. Para 2015, a TIC em Foco estimou o aumento em apenas 2,4% em relação ao ano anterior. Uma diferença relevante com o crescimento apresentado no documento da ABES, de 17,5%, em 2015, para a soma dos mercados de software e serviços.

Por dois anos consecutivos, 2013 e 2014, a crise econômica interna e as transformações tecnológicas e de negócios que acontecem em nível mundial atingiram de cheio as empresas brasileiras de software e serviços de TI de micro e pequeno porte, com até 19 ou menos pessoas ocupadas, o perfil típico de empresas de capital nacional, acarretando em quedas significativas de receita (média em torno de -7,0%, no período). O conjunto constituído por empresas com 20 ou mais pessoas ocupadas, no entanto, nos anos mencionados, conseguiram, ainda, manter taxas razoáveis de crescimento (em torno de 8,0% ao ano). A partir de 2015, no entanto, elas começam a vivenciar um processo de desaceleração de crescimento.

Para 2016, a TIC em Foco projeta um aumento para o setor brasileiro de software e serviços de TI inferior a 1,0%. As empresas de menor porte continuarão sendo as mais prejudicadas pelas condições instáveis do período.

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Notas metodológicas:

O setor de software e serviços de TI é constituído pelo total de empresas ativas e atuantes no país independente da sua origem de capital. Do conjunto de empresas fazem parte aquelas com atividade principal no desenvolvimento e/ou licenciamento de software e na prestação de serviços de TI.

Para efeito de comparação com os dados da ABES, as empresas com atividade principal nas classes CNAE 6311 –  tratamento de dados, provedores de serviços de aplicação e de hospedagem na Internet e CNAE 6319 – portais, provedores de serviços de conteúdo e outros serviços de informação na Internet foram desconsideradas embora, segundo critério adotado pela TIC em Foco, baseado em classificações internacionais, compõem os serviços de TI.

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